Terror em treinamentos de segurança

Provavelmente você já foi apresentado a algumas das imagens acima (que aqui estão rasuradas). Elas são sempre usadas em treinamentos de segurança com a intenção de mostrar ao aluno o que vai acontecer, caso ele não siga o que está sendo ensinado. As questões que trago aqui são as seguintes: essas imagens são mesmo necessárias para mostrar o impacto de acidentes? Existe um acordo em ser exposto a cenas tão fortes?

O porquê do uso do terror como ferramenta de ensino

Mostrar carnificina nos treinamentos de segurança aparenta ter algumas explicações, e uma delas pode ser cultural. Fiz aulas de segurança de trabalho no meu curso técnico em 2010, e desde lá venho sendo apresentado a estas imagens. Acredito que quem hoje é instrutor, teve seu treinamento assim no passado, e da mesma forma reproduz isto para seus alunos hoje. Outra explicação é a tentativa de impactar aos alunos de forma a nunca esquecerem daqueles riscos e dos métodos seguros ensinados. Nenhuma das explicações me faz concluir que isto melhorará o treinamento em algum sentido.

Todos que realizam os treinamentos de segurança (seja qual for) são adultos e sabem o que acontece com alguém ao receber um choque elétrico, quem tem a mão prensada, ou cortada, entre outros, após a explicação dos danos pelo instrutor. Mostrar cenas fortes pode causar pânico à profissão.  Você pode estar pensando “mas no dia da aula, quando o instrutor mostra estas fotos e vídeos, as pessoas fazem até piadas. Ninguém se deixa afetar”. Porém, quem trabalha na área técnica e vai fazer seu treinamento de NR 10, 35, 33, 12, etc, geralmente é o bruto (o peão), que, por razões sociais do seu meio de trabalho, não costuma mostrar medo ou pânico, pois isto é visto como uma fraqueza, na maioria das vezes. Isso se torna claro quando acontece algum acidente com um colega de trabalho, pois quem antes fazia piadas com vídeos de acidentes, agora, contudo, sofre impactos psicológicos e pode até mesmo largar a profissão.

O que quero dizer com isso é que, mesmo que os vídeos e imagens não traumatizem, eles têm efeito nulo. O trabalhador precisa ver aquilo acontecer com alguém do seu lado para começar a entender que poderia ter acontecido com ele. É o mesmo que acontece com casas roubadas. Mesmo sabendo do índice de assalto a casas na região, geralmente o morador não toma nenhum cuidado para deixar sua casa mais segura, mas após o vizinho ser assaltado, todos colocam cercas e alarmes em suas casas.

O terror tem utilidade no ensino?

Isto torna claro o que venho trazer: vídeos e fotos aterrorizantes não trazem o efeito esperado de alerta. Pelo contrário, eles trazem distanciamento do risco, faz acreditar que isso acontece , nunca vai acontecer aqui (talvez por conta deste distanciamento as pessoas consigam até fazer piadas de fatos trágicos)

Então, como alertar devidamente sobre os perigos?

Daí vem a grande pergunta: Então, como impactar os trabalhadores sobre os riscos? Cabe ao instrutor entender bem o ambiente em que o profissional trabalha. Perguntar quais são as práticas que eles usam e usar isto como plano de fundo: práticas e ambiente REAL de trabalho. Mostre o que poderia já ter acontecido ali e, se acontecesse, quais seriam os danos. Entende que o perigo que estava agora está AQUI? A sensação de risco eminente aumenta e ele trabalhará mais alerta. Isto aumentará muito a qualidade do seu treinamento.

Neste sentido, é importante trabalhar sobre acidentes e incidentes já ocorridos no local. Conversar sobre o ocorrido e pensar, através de uma conversa com pessoas de diferentes áreas, fazendo um brainstorm e caminhar no sentido de que aquele tipo de acidente não possa mais ocorrer. Algumas empresas usam imagens e nome de colaboradores acidentados para trazer a sensação de risco para os demais, porém deve-se ter cuidado com esta prática. Mais uma vez, além da possibilidade de traumatizar psicologicamente, também há o efeito humilhante de mostrar um funcionário como “o errado”, “o exemplo a não ser seguido”. Esse uso de imagem de forma a humilhar o colaborador é um ato criminoso previsto no artigo 50 do inciso X na Constituição Federal e no artigo 20 do Código Civil. Além disto, deve se ter cuidado na narrativa evitando que ela seja no sentido “só aconteceu porque ele é descuidado”, “se fosse comigo seria diferente”. Isto, novamente, além de humilhante, distancia os outros colaboradores de um risco que pode haver na instalação em que trabalham.

Enfim, espero que este texto possa alcançar muitos instrutores e que eles repensem a forma de passar seu treinamento, levando aulas com mais qualidade e mais percepção de risco aos seus alunos.

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